30 março 2010

lama azul



foto magda montemor

lá no fundo da água está a lama. a tal onde os parentes caem. sem remédio.

(e no entanto a aparência é tão azul na hora em que mesmo a luz nos faz doer!)

28 março 2010

do fim do Sonho ou... não.

Sonhei extensão tamanho mar e céu.

Sonhei grande demais e reduziram-me

Para que coubesse o meu eu, no deles Eu


Agora sonho traço de horizonte

Coisa simples de ver e... não temer

Mesmo assim acabo onde?



image by magda montemor

10 fevereiro 2010


image by John Sheppard

este cansaço de ter a morte no colo. embalá-la, embalá-la
como a uma irmã doente que não tem força para andar
um cansaço feito de aço. todo raiva silenciada
mas a morte... a morte é ela. só ela pode matar.

pois que me dê ela colo. me leve rapidamente
para onde não haja dor. essa dor de se ser gente
olhar em volta e só ver rostos de pressa vazia
corpos dados sem amor. velhos na lenta agonia
de estar vivos por favor
quer do estado ou da família ou atirados pela rua
mas fora do contentor.


embalo a morte no colo mas até quando consigo
não partir para a aventura de saltarmos, ela e eu
para o ar limpo que vai do penhasco até ao mar?
e não nos cansarmos mais.

06 fevereiro 2010

Não te lamento a morte Nuno , agradeço-te a Vida.



colagem simples de MP
mas com direitos reservados

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" Uma noite, ao jantar, começou a ouvir-se um ruído raspado pela chaminé abaixo, e quando todos se tinham calado a olhar para o fogão apagado, um melro entrou e pousou na lage, em frente ao fogão. E ele olhou para toda a gente, com a comprida cauda a pulsar de espanto, após o que, borrou-se. Uma das minhas tias gritou que aquilo era um aviso do Destino, mas o melro levantou vôo e começou a bater nas paredes e cortinas e às vezes atravessava a sala de jantar de lés-a-lés, voando curvilíneamente de forma que passava junto às cabeças de todos, e havia gritos.

Um primo de cabelos brancos e bochechas muito encarnadas levantou-se e disse que ia caçar o melro. Eu só percebi que este estava muito pouco contente e que só queria sair de uma casa onde nunca tinha querido entrar, para começar. Esse primo de cabelos brancos não vivia connosco mas viera jantar nessa noite. Ele agarrou numa almofada de veludo rôxo e atirou-a ao melro, que caiu embrulhado na almofada que era muito mole, resvalando o conjunto por uma parede abaixo. Então eu peguei numa romã e arremessei-a com toda a força à cabeça encarnada e branca desse primo que não vivia connosco e se chamava Jaime.

Estava tudo a olhar para o melro e por isso eu pensei que não me vissem. Mas uma criada que entrava observou o meu gesto, e fui imediatamente empurrado até ao quarto. Bateram-me bastante, nos dois lados da cara, e nunca cheguei a saber o que finalmente aconteceu àquele pássaro."

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In I painel - "A noite e o Riso" de Nuno Bragança

(1929-1985)

29 janeiro 2010

últimas flores

magda montemor



Quando lhe atirarem a última pedra não esqueçam
que as flores que deixarem cair por bem parecer

serão vocês a murchar ou a cristalizar ali, sem o saber.

24 janeiro 2010

sonho recorrente

magda montemor


num sonho recorrente via uma estrada.

sempre a mesma estrada.

lá ao fundo parecia haver mais luz

lá ao fundo. mais luz

parecia.

haver mais.

*-*


perecia. a Luz.

lá ao fundo.



a estrada ainda lá está

a parecer.

22 janeiro 2010


Se eu voltar a escrever que a primeira palavra seja Amor, usando todas as letras do alfabeto nesse nome só.

Image by Hengki24

18 janeiro 2010

de corpo inteiro


foto de Magda Montemor

não sei nadar em cardume. sufoco. se venho à tona para me afastar

é o ar não tratado que me mata. assim não sei

nadar.


deixem que eu volte a ser de corpo inteiro

talvez possa voar.


31 dezembro 2009

última voz em 2009

Sun_Stroke_by_MagdaMontemor.


eram cavalos. no sonho. cavalos de correr. desses de amar

eram cavalos soltos livres sãos. cavalos despenteados pelo vento

cavalos incapazes de parar

eram cavalos. não no sonho, de sonho. eram cavalos de ninguém domar!


eram. eram. eram. tão passado!


eram cavalos de nunca te pisar em correria de fuga

se assim fosse.

eram cavalos. dignos do nome da raça. Lusitanos e para continuar.


parto. não em desespero. só sem esperança.

parece o mesmo? eu sei, mas luto pela diferença.




quando o Amor se acaba nesta vida

inventa-se uma Crença!






( aos meus filhos, neste ano que passa. passará? para muitos com certeza. outros ficarão a sentir os cascos, dos cavalos a pisar-lhes, sem piedade, a já... fin-da-cabeça)

19 dezembro 2009

desde ontem sei, como sei que nasci...


haver uma parte da história por narrar.
um livro em branco que eu não queria encher e sei agora que não pode esperar e ninguém impedirá que, bom ou mau, acabe por se ler.


foto de madalena pestana.

07 dezembro 2009

vida de borboleta


ia de olhos no chão. quem sabe agora se seria por medo de cair
numa das ratoeiras que a cidade estende
como uma passadeira interminável?

ia cansada. nem triste nem alegre. só cansada. a precisar de campo. como sempre e a não o poder ter.

ao lado havia vozes. logo havia mais gente no caminho. não olhou. eram vozes jovens. não precisavam dela.

o chão sim. parecia puxá-la como abismo em dia de vertigem. focou melhor a calçada a preto e branco.

uma minúscula e leve forma acastanhada chamou-lhe a atenção. era uma borboleta. com as asas viradas para cima. uma oração?

não se baixou mas parou a olhar. a pensar que gostava de ter uma vida curta e breve. mas não uma vida castanha.

branca ou preta talvez. castanha não.

terá sido um melro a soltar o insecto do bico em pressa de fugir de uma gaivota?

o que a terá feito morrer ali. entre automóveis e gente indiferente?

image by Lynze Lane

se ela tivesse vida de borboleta e pudesse escolher deixava que o vento a arrastasse para morrer junto ao mar. o fim dos rios todos.

entrou em casa. nem alegre nem triste só mais cansada agora. a vida era já longa. demais.

têm sorte as borboletas. cumprem a função na terra e deixam-nas partir...

30 novembro 2009

Uma frase que passou por mim a esta hora

Formação e desemprego by Magda Montemor

"Da minha aldeia vejo quanto da terra se pode ver do Universo...
Por isso a minha aldeia é tão grande como outra terra qualquer,
Porque eu sou do tamanho do que vejo
E não do tamanho da minha altura..."


- Fernando Pessoa

25 novembro 2009

chuva ou

das Hienas.

watching rain by MagdaMontemor
___________

é chuva?

é chuva sim. calma. constante.
da que penetra a Terra e fertiliza
chuva da cor de lágrimas sem sal
de quando as almas choram em uníssono
desenbargando as palavras que calavam

do silêncio ela sabe e do choro guardado
das palavras sem som sabe também
e da terra ou o seu corpo esventrado
e depois desertado
como o de um animal que os predadores
abandonaram saciados
e ainda estremece ansiando a morte. total.

agora chove. sem perigo de inundar
chove-lhe sobre o rosto levantado
para aquele céu de almas a chorar

no Outono parte da vida apodrece para voltar a nascer
reciclada
assim seja pois com as partes do seu corpo
espalhadas
apodreçam unidas num passado

em nenhuma Primavera que vier ela as quer re-encontrar
para que não lhe doa mais o ventre
a dentes de carnívoro, trocidado
quando ainda tremia fremia de vida.

por amar!



madalena pestana (aka - magda montemor)

uma frase do começo de...nada


woman-before-the-rising-sun by caspar-david-friedrich

cobri de tecido carne cada degrau do teu corpo.

20 novembro 2009

re - introdução

woman rising - Jo Robinson Art



Ai miserável de mim e infeliz!
Apurar, ó céus, pretendo,
já que me tratais assim,
que delito cometi
contra vós outros, nascendo;
que, se nasci, já entendo
qual delito hei cometido:
bastante causa há servido
vossa justiça e rigor,
pois que o delito maior
do homem é ter nascido.

E só quisera saber,
para apurar males meus
deixando de parte, ó céus,
o delito de nascer,
em que vos pude ofender
por me castigardes mais?
Não nasceram os demais?
Pois se eles também nasceram,
que privilégios tiveram
como eu não gozei jamais?

Nasce a ave, e com as graças
que lhe dão beleza suma,
apenas é flor de pluma,
ou ramalhete com asas,
quando as etéreas plagas
corta com velocidade,
negando-se à piedade
do ninho que deixa em calma:
só eu, que tenho mais alma,
tenho menos liberdade?

Nasce a fera, e com a pele
que desenham manchas belas,
apenas signo é de estrelas
graças ao douto pincel,
quando atrevida e cruel,
a humana necessidade
lhe ensina a ter crueldade,
monstro de seu labirinto:
só eu, com melhor instinto,
tenho menos liberdade?

Nasce o peixe, e não respira,
aborto de ovas e lamas,
e apenas baixel de escamas
por sobre as ondas se mira,
quando a toda a parte gira,
num medir da imensidade
co'a tanta capacidade
que lhe dá o centro frio:
só eu, com mais alvedrio,
tenho menos liberdade?

Nasce o arroio, uma cobra
que entre as flores se desata,
e apenas, serpe de prata,
por entre as flores se desdobra,
já, cantor, celebra a obrada natura em piedade
que lhe dá a majestade
do campo aberto à descida:
só eu que tenho mais vida,
tenho menos liberdade?

Em chegando a esta paixão
um vulcão, um Etna feito,
quisera arrancar do peito
pedaços do coração.
Que lei, justiça, ou razão,
nega aos homens - ó céu grave!
privilégio tão suave,
exceção tão principal,
que Deus a deu a um cristal,
ao peixe, à fera, e a uma ave?"



MONÓLOGO DE SEGISMUNDO
(LA VIDA ES SUEÑO, Ato I, Cena I) de Pedro Calderón de la Barca

19 novembro 2009

no meio a página em branco


picture by whateverly

do puzzle que hei-de montar


09 novembro 2009

Ode aos Amigos



Porque há amigos e eu posso confirmar
Porque há Paz dentro a nós e hei-de recuperá-la
Porque há um riso em mim ainda por soltar
Porque há água a correr baixo a cada ponte
Porque te espero a ti e sei que hás-de chegar

Por tudo isso é que ainda ando a monte
Perdida entre o que sou e o por achar
Fugida da vida-morte oferecida
Por quem Devia agradecer e amar

___*___

mas afinal ____ é disto que hoje é feita a nossa vida

a Vida. a Outra. alguém há-de encontrar

a Ponte. Aquela ponte - sobre o Rio no deserto
que cada um de nós é. sem conhecer
essa só os Amigos hão-de saber Ser
e há-de salvar-nos seja aonde for.


29 outubro 2009

festa!



foto de Magda Montemor



que bom deixar para trás o passado. todo.

com a naturalidade com que o sol desce no horizonte

a cada dia.


26 outubro 2009

anjo do Mal

Precipice by Rockwell Kent


o empurrão para a morte veio pela manhã

foram as mãos de um anjo implacável

a fazer a pressão desmesurada

nada de inesperado. os anjos do mal aguardam

na descida


foi forte a tentação de deixar-se ir

começou mesmo a escorregar devagarinho

silenciosamente

sabia bem aliviar assim do fardo de viver

( descer até ao fim tão desejado! )


súbito estancou e agarrada ao vazio

içou-se a pulso


- não. o inferno do alheio não me pode vencer

o anjo maldito não triunfará ainda desta vez

e recobrada a força subo ao alto de mim

e grito-lhe OBRIGADO!




É a minha resposta Leonor, o agradecimento é genuíno.

15 setembro 2009

fotografando

image by MagdaMontemor

passando na rua. óculos escuros.

simples coisa de quem não quer ser visto

só olhar

vi sem ver uma mancha numa parede suja a tempo. vi.

voltei atrás. óculos escuros em riste

era um homem. seguramente era. a mancha na parede tinha volume

um volume difícil. de tão triste.

sem nenhum desrespeito disparei. instante registado


e agora. dona disso. dessa dor.

- fujo dela como? para que lado?