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07 dezembro 2009

vida de borboleta


ia de olhos no chão. quem sabe agora se seria por medo de cair
numa das ratoeiras que a cidade estende
como uma passadeira interminável?

ia cansada. nem triste nem alegre. só cansada. a precisar de campo. como sempre e a não o poder ter.

ao lado havia vozes. logo havia mais gente no caminho. não olhou. eram vozes jovens. não precisavam dela.

o chão sim. parecia puxá-la como abismo em dia de vertigem. focou melhor a calçada a preto e branco.

uma minúscula e leve forma acastanhada chamou-lhe a atenção. era uma borboleta. com as asas viradas para cima. uma oração?

não se baixou mas parou a olhar. a pensar que gostava de ter uma vida curta e breve. mas não uma vida castanha.

branca ou preta talvez. castanha não.

terá sido um melro a soltar o insecto do bico em pressa de fugir de uma gaivota?

o que a terá feito morrer ali. entre automóveis e gente indiferente?

image by Lynze Lane

se ela tivesse vida de borboleta e pudesse escolher deixava que o vento a arrastasse para morrer junto ao mar. o fim dos rios todos.

entrou em casa. nem alegre nem triste só mais cansada agora. a vida era já longa. demais.

têm sorte as borboletas. cumprem a função na terra e deixam-nas partir...

19 junho 2009

Nómada


image by Michal Karcz


no mistério da estrada o incógnito. absoluto

nem uma só palavra. desleixada. perdida

a desvendar passados. longínquos tal o tempo

absortas as árvores apelam novos rumos

...e o vento passa longe!

transporta no cinzento das nuvens

a espessura dos sonhos


by Brian Kerr

silêncio a silêncio

construída a vazios. talhada osso em pedra

cresce a história dos homens.


aquela ou outra estrada gravaram-lhes os passos

esqueceram-lhes os sons

deixam marcas nas rochas

cantos de urgente voz. tecidos ardua-mente


houve pressa no erguer-se. lentidão em partir.


vindos. nascidos de onde?

rios em sulcos de pedra. caminham

para que foz?


13 junho 2009

feminino

image by ahituna

desenha árvores na areia para que as recordem.

depois daquele dia. o dia do incêndio global. calor extermínio onde o verde não cabe. onde o verde se apaga. onde o azul é cinza ou nevoeiro de onde não surge nada nem ninguém. sobretudo não esperança.

só o vento manterá a sua dança feito ar ardente. sobre rochas eternas. mais escavadas mas lá. perfuradas, alisadas mas ainda lá. porque não ardem. só porque não ardem.


image by photoscot

mas há uma mulher. escondendo o corpo. em meio à rocha. defendendo no ventre um ovo. fecundado.

lá em baixo o rio na areia deixa que o vento apague os traços inúteis de árvores mortas e volta a sussurrar.

há recomeço onde a fúria do feminino dê em lutar. se a Vida é causa.

04 junho 2009

sarasvati - o rio


image by MustafaDedeogLu


o longe que puder. mais longe ainda que os fins já conhecidos. é para lá que vai.
leva no dorso a saudade do trigo. pouco mais. é peso leve mas ainda muito. de caminho o aliviará. tem como certo.
na noite sabe do sabor da luz. de dia dorme as estrelas haja nuvens ou não.

ainda não sente dor. anestesia da liberdade conseguida. dentro.

e cavalga o destino na direcção do rio que acaba no deserto.

image by MustafaDedeogLu